blog d'apontamentos

30.11.05

Três Marias


Não era para este que queria chamar a vossa atenção, mas sim para estas: Maria Isabel Barrento, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta. A saborear!

Porque a vi um destes dias num programa de televisão e muito gostei de a ouvir, e pelo brilho da sua escrita, aqui fica também a menção a Hélia Correia.
11:46 da manhã | 2 comentários |

29.11.05

quase sem palavras


Pois é, podia-se dizer muito coisa, até eu podia, mas a frase que repeti a mim mesmo, fotografia a fotografia, foi apenas uma só:"Porra que o gajo é bom!"

Tudo isto a propósito de um convite, que mais tarde se saberá.

Alberto, desculpa não te ter pedido antecipadamente para reproduzir a foto, qualquer coisa avisa.
11:07 da manhã | 3 comentários |

28.11.05

A ler

Escritoras suicidas: a Márcia Maia também está lá, foi por ela que soube.

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Lirismo Minimalista: um nome enorme para uma proposta mínima. Leia e participe. Qualquer um pode participar.

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Ler Alto: o próximo - o 7.º - é já no dia 2 de Dezembro, pelas 10 horas, nos Artistas, em Faro. Apareçam.

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Um blog: Uma cigarra na paisagem.
7:36 da manhã | 2 comentários |

26.11.05

Então a gente não há-de rir?


Esopaida ou vida de Esopo, de António José da Silva (o Judeu), pelo Teatro da Cornucópia, foto de Luís Santos.
10:02 da manhã | 0 comentários |

25.11.05

o caminho que sobe é o caminho que desce


É tão incrível não ter lido ainda Ruben A. quanto ser certo que há imenso tempo o desejo ler.

Desta vez, incentivado por quem leu dele toda a obra (Olá Laura), vou tentar encontrar os seus livros, tão invisíveis, parece, quanto o seu autor.

Li agora e aqui regressarei.



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11:50 da manhã | 1 comentários |

24.11.05

Ideias refeitas


Por motivos que não vêm ao post, coloquei ontem na minha bolsa o Dicionário de Ideias Feitas de Gustave Flaubert, e hoje, quando o reencontrei folheei-o com prazer.

Depois, em frente ao ecrã, busco e encontro, não só o Dictionnaire des Idées Recues, não só uma opinião sobre ele, mas todo um site, imenso.

Leio o dicionário no original e espanto-me com os acrescentos...

Agricultura — Uma das tetas do estado (o estado é do género masculino , mas não importa). Deve ser encorajada. Falta de braços.
Agriculture — Manque de bras

Arquitectos — São todos uns imbecis. Esquecem-se sempre das escadas dos prédios.
Architectes — Oublient toujours l'escalier des maisons.

...e com as ausências...

Ange — Fait bien en amour, et en Littérature. (Anjo – Fica bem no amor, e na Literatura)

Erection — Ne se dit qu'en parlant des monuments.(Erecção – Utilizar apenas ao falar de monumentos)

(a tradução – péssima- é da minha responsabilidade)
10:44 da manhã | 0 comentários |

23.11.05

Deambulo ainda...

...que com frases como estas até apetece, mas a minha preferida do momento ainda é a seguinte:

Nunca ninguém se perdeu, tudo é verdade e caminho.

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PS. Enviaram-me por correio electrónico a fotografia acima e outras semelhantes sem indicação de autor...
11:52 da manhã | 1 comentários |

22.11.05

Deambulação



Regresso a Évora, ao romance Aparição, de Virgílio Ferreira...
e encontro o autor Manuel Maria...

e um pouco mais à frente......encontro o Major Reformado.

Foram encontros felizes, daqueles que só acontecem quando se deambula.
11:46 da manhã | 2 comentários |

Bocas

Gosto de bocas...


das que se beijam e das que se mandam, ou amandam, como por aqui se usa dizer. Ainda há pouco me mandaram uma de que gostei muito. É do Woody Allen e diz assim:"Não digam mal da masturbação: é sexo com alguém que realmente se ama."

Mas há mais. Muito mais. :)
10:44 da manhã | 0 comentários |

21.11.05

Poemas e Poetas (20)

Sei ao chegar a casa

Sei
ao chegar a casa
qual de nós
voltou primeiro do emprego

Tu
se o ar é fresco

eu
se deixo de respirar
subitamente

António Reis - Novos Poemas Quotidianos, pág. 15, Porto, [1959].

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Um poema, um poeta... e um blog, a ler e a percorrer, para conhecer a vida e a obra do cineasta António Reis
8:21 da tarde | 0 comentários |

Não digas nada... escuta...



Chet Baker in Bologna
3:31 da tarde | 2 comentários |

E esta, esta...


...esta é como água para a minha sede.

José Peixoto e O que me diz o espelho de água.
2:37 da tarde | 0 comentários |

Continuo a respirar, e começo a bater o pé...



... agora com Laurie Anderson e Strange Angels.
11:34 da manhã | 0 comentários |

Música que se respira



Ouço menos música do que gostaria. Nem sei bem porquê. E quando ouço, ouço quase sempre o mesmo, vezes sem conta.

Hoje peguei em quatro desses álbuns a que volto sempre. Comecei por um dos meus preferidos de sempre, Wynton Marsalis e The midnight blues, o vol. 5 de Standard Time.

Não muito diferente do ar que se respira.
10:31 da manhã | 0 comentários |

20.11.05

Se é como eu, veja este filme!

Se gosta do que se convencionou designar por comédia dramática e prefere finais felizes, é como eu, e não pode perder o filme Na sua pele.



Vá por mim!

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11:51 da tarde | 0 comentários |

Turma CC3

Tenho para aí uma t-shirt que diz, citando Cervantes, que os homens são filhos das suas obras.

Assim sendo, desejo uma longa e feliz vida à nossa obra. Irei passando por aí.
9:56 da manhã | 0 comentários |

19.11.05

Fui ao teatro!


Ontem fui (pela primeira vez) ao Teatro Municipal de Faro ver Os Persas de Esquilo pelo Teatro da Garagem. Meia hora antes do espectáculo telefonaram-me a oferecer-me um convite (obrigado Gabi) que aceitei.

A rapariga alta de cabelo pelos ombros que me deveria entregar o bilhete atrasou-se, pelo que assisti ao espectáculo de um gabinete ao fundo da sala, com más condições de visionamento, o que não me impediu de apreciar a apresentação de Os Persas.

O texto, pesado, demasiado declarativo, e digo o que sinto, descontando a minha quase total ignorância sobre a tragédia grega em geral e esta em particular, pareceu-me ganhar maior leveza mas também profundidade, com a luz, os sons e as movimentações que lhe conferiram maior expressividade.

À saída, a pensar que não é impunemente que se vê um espectáculo como este sem qualquer preparação, e aqui falo em formação de públicos, actividade que me parece muito descurada, desde logo em eventos como este em que esta peça se integra. O programa, que só depois de terminado o espectáculo, tive oportunidade de ler, concorre para essa função de preparação e esclarecimento.

[Leia Os Persas de Ésquilo na Atenas do Seu Tempo, de Maria do Céu Fialho ---> em pdf]
12:36 da tarde | 5 comentários |

18.11.05

Poemas e Poetas (19)

Soneto
(Manuel Alegre)

É preciso saber porque se é triste
É preciso dizer esta tristeza
Que nós calamos mas tantas vezes existe
Tão inútil em nós tão portuguesa.

É preciso dizê-la e preciso despi-la
É preciso matá-la perguntando
Porquê esta tristeza como e quando
E porquê tão submissão tão tranquila.

Esta tristeza que nos prende em sua teia
Esta tristeza aranha esta negra tristeza
Que não nos mata nem nos incendeia

Antes em nós semeia esta vileza
E envenena o nascer de qualquer ideia.
É preciso matar esta tristeza.

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PS - O poema acima foi publicado por razões exclusivamente poéticas. :)
9:07 da tarde | 0 comentários |

Afonso...

... obrigado pela simpatia, pela partilha, pelo vinho...



... que não era de 1999, nem de 2000, mas de 2001.

:)
12:09 da tarde | 0 comentários |

Helder...

... obrigado, bem-hajas.

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Brincar com a língua

Contar uma história é como jogar um jogo, um qualquer jogo, quer se pense no jogo do berlinde (às três covas, por exemplo) ou no jogo do xadrez. Existem regras, existem dificuldades e até existem adversários. Mas o essencial num jogo é que nos possamos divertir.

Este é o terceiro de três artigos (é portanto o último) em que vos falo aqui de contar histórias, e vou tentar mostrar-vos como tal actividade pode ser divertida, realçando um aspecto que nada mais é que a superação de várias dificuldades. Quando se conta uma história, quando se a escreve, temos de ter em conta todas as histórias que já foram contadas e, no entanto, contar a nossa história, contar uma nova história. E contamos e escrevemos contra a língua, a sua ambiguidade, a sua sonoridade, a sua gramática. A superação dessas dificuldades traz sem dúvida prazer a quem escreve e a quem lê. Do que vos quero falar é de como podemos brincar com a língua.

Tomemos por exemplos os lugares comuns, ou as frases feitas. Se por um lado é bom ter essas expressões sempre à mão, por outro lado é ainda melhor parodiá-las, subvertê-las, brincar com elas, como se de um jogo se tratasse. Conhecem a expressão “ir desta para melhor”? É curioso como diz tanto da nossa mentalidade e será sem dúvida divertido usá-la. Vejamos então uma pequena história, que é afinal delas que aqui temos tratado.

1. Quando a morte veio para o levar, ele recebeu-a com um sorriso aberto: finalmente ia desta para melhor.

Será que a morte nos leva desta para melhor? Tenho dúvidas, e mesmo que assim seja, não me parece que recebesse a morte com agrado. Mas isso é outra história.

E quanto a dizeres populares, sempre tão expressivos e vivos? É claro que também se pode brincar com eles. Vejam lá se conhecem os que empurrei para a seguinte história, todos eles com um denominador comum.

2. Par de botas
Era um borra-botas sem emenda e um incorrigível lambe botas. E, como se isso não bastasse, tinha uma mulher feia como uma bota da tropa. Mas não se preocupem com ele pois cedo bateu a bota.

Estão a ver como consegui em muito pouco espaço meter quase tudo e ainda um par de botas! Foi divertido para mim escrevê-lo e espero que o tenha sido para vocês lê-lo.
Mas se a ideia principal é brincar com a língua, cedo percebi que era fácil brincar mesmo com ela, a palavra língua e os seus diversos significados, usando sobretudo essa ambiguidade para criar efeitos divertidos. Pois bem, língua tem basicamente três significados: órgão principal da articulação da palavra, da deglutição e da gustação; linguagem e idioma. É com estes três significados que podemos jogar, bem como com as expressões populares que a eles se referem, como por exemplo “soltar a língua” ou “tropeçar na língua”.

3. Era um homem muito calado mas adorava trava-línguas. Este era na verdade o único tema que lhe soltava a língua e o fazia falar durante horas.

4. Tropeçava muitas vezes na língua, razão que o levou a deixar de falar enquanto andava.

E pode-se fazer mais, muito mais, sempre a brincar com a língua.

5. O gato comeu-lhe a língua, e não foi em sentido figurado. Felizmente, ele estava já estava morto e nada mais tinha para dizer.

6. Adorava tanto a língua materna que a conservou até ao fim da sua vida em formol.

7. Falava português fluentemente, com excepção das raras vezes em que mordia a língua.

8. Tantas vezes deitou a língua de fora que um dia ela não voltou para dentro.

9. Tinha uma língua porca. Um dia lavou-a e nunca mais conseguiu dizer um palavrão.

10. Estavam a falar quando ela lhe meteu a língua no ouvido com sofreguidão. Depois ela nada mais disse e ele nada mais ouviu.

Brincar com a língua, espero estar a convencê-los disso, é não só divertido mas também importante, porque nos dá a conhecer a língua que usamos e a tirar dela mais prazer e utilidade.

11. Lengalenga
O que é importante é distinguir o que é importante do que não é importante.

Perceberam alguma coisa? Perceberam pelo menos que me diverti a usar numa frase tão curta a palavra importante três vezes!

Para terminar, uma brincadeira com a língua que usa não só a nossa língua mas também a dos nossos vizinhos espanhóis, aqui tão perto. Sem dúvida que conhecem a palavra embaraçar, e já uma vez ou outra o ficaram. Agora se pensarmos em “embarazar”, que se pronuncia da mesma forma (pelo menos foi o que me garantiram) aí as probabilidades serão menores, pois embaraçar significa engravidar. E olhem que acontece aos melhores. Quando a Parker Pen começou a vender uma caneta esferográfica no México, os anúncios deveriam dizer "it won't leak in your pocket and embarrass you", ou seja, “não vazará no seu bolso e não o embaraçará”. No entanto, a empresa pensou que a palavra "embarazar" tivesse o mesmo significado que embaraçar, de modo que o anúncio acabou por dizer, depois de traduzido, qualquer coisa como: "Não vaza no bolso e você não engravida".

Então até qualquer dia. Deixo-vos com um abraço e a última brincadeira com a língua.

12. Conselho aos homens
Em Espanha, tenta nunca embaraçar uma mulher, a não ser que o desejes mesmo, e ela também.
10:57 da manhã | 1 comentários |

17.11.05

Este país onde vivo




Às vezes sinto que vivo num país de desconhecidos, de pessoas que se desconhecem umas às outras.

Desconhecemos os nossos autores, desconhecemos os outros e, como não podia deixar de ser, desconhecemo-nos a nós mesmos.

Vivo num país que teima em se desconhecer.
9:34 da manhã | 2 comentários |

16.11.05

Gaba-te blogger!


Comecei hoje o dia a ajudar um amigo a dar uma aula. Falei do meu percurso como blogger ligando prática e reflexão sobre o blog, mostrei alguns dos que editei, incluindo este em que escrevo, e criámos um, a título exemplificativo.

Gostei não só de estar na sala de aula, como também gostei de pensar e preparar a intervenção. É sempre bom contar a nossa história, e foi mais ou menos o que fiz. Confesso-me surpreendido pelo quanto escrevi sobre o assunto e já quase havia esquecido, e também pelo pouco que agora alteraria do que então escrevi.

Surpreendido também pelo facto de todos os alunos (e só não digo alunas por haver um aluno) terem já tido contactos com a realidade blog.

Foi agradável, bastante agradável.

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Não que o tenha seguido, mas porque me serviu de base, aqui fica um texto que li em tempos no Alandroal.


O blog como exercício de escrita,
o blog como exercício de proximidade



Aqui e agora, eu e tu temos encontro marcado. Neste texto, eu o autor e tu o leitor cumprimentamo-nos (Olá, como estás? Estou bem, e tu? Bem, muito obrigado? Eu também.) e confundimo-nos: eu sou tu e tu és eu e os dois somos tu e eu. Não estamos sós! Também está aqui uma terceira pessoa: o editor. Não o ignoremos! Temos então autor, leitor e editor todos juntos num texto. Um texto onde aquele que chega é, ao mesmo tempo, um potencial autor, leitor e editor. Quem julgaria isto possível? Viva o texto, viva o hipertexto. Viva todos nós!


Este pequeno texto que acabei de ler, foi publicado em tempos no Mil e Uma Pequenas Histórias, o blog que mantenho desde Agosto de 2002.

Tal como as cerca de seis centenas de outras pequenas histórias que aí se encontram, foi escrita por mim, e também por mim editada, quase ao mesmo tempo que podia ser lida por quem por ali passasse.

Esta história tem ainda outra particularidade, a de ter sido a primeira em que inclui uma ligação para outro lugar da Net, precisamente um site dedicado ao hipertexto

O texto electrónico é apontado por muitos como uma verdadeira revolução. O blog, por seu lado, é sem dúvida a guarda avançada dessa revolução electrónica.

No blog assiste-se a um fenómeno verdadeiramente único, no que à escrita e à leitura se refere: autor, editor e divulgador confundem-se pela primeira vez, reduzindo de modo dramático e irremediável a distância entre autores e leitores, entre a escrita e a leitura. A escrita e a leitura nunca estiveram tão próximas, atingindo uma quase simultaneidade e uma quase identidade nunca antes conseguidas.

É sobre estes dois eixos, por assim dizer, que desenvolverei esta breve exposição, considerando o blog quer como um exercício de escrita, quer como um exercício de proximidade.


Exercício de Escrita


Escreve-se escrevendo, esta é a verdade para qualquer um que se aventura na escrita.

Escreve-se pois escrevendo, com regularidade e persistência, tal é a sina de quem escreve.

O blogger, aquele que edita um blog, precisa, dadas as própria características do suporte que utiliza, escrever com regularidade e persistência, tentando sempre melhorar a sua escrita.

Todos os que mantêm ou mantiveram um blog passaram por esta verdadeira prova de fogo e devem ser considerados autênticos escritores, escritores de blogs ou, simplesmente, bloggers, isto porque a sua actividade principal é escrever, em nada se distinguindo de outros escritores convencionais, quer sejam romancistas ou cronistas.

Em Agosto de 2002, quase há dois anos que mais parecem uma eternidade, comecei a editar o Mil e uma pequenas histórias, blog com o qual, como seu nome anuncia, pretendia, pouco a pouco, quase diariamente, atingir as 1001 histórias. Ainda não alcancei o meu objectivo, mas aproximo-me dele cada vez mais, com a regularidade e a persistência que são exigência da própria escrita e, neste caso, também do próprio blog que tem se mostrado ele mesmo um verdadeiro exercício de escrita.

As cerca de seiscentas pequenas histórias que escrevi até agora no Mil e uma pequenas histórias dificilmente existiriam se o blog não existisse. Esta é uma afirmação que uso sem reservas, e tenho a certeza que muitos blogs a subscreveriam no seu caso particular: sem blog não teriam escrito, sem blog não teriam continuado a escrever.


Exercício de Proximidade


Mas se o blog é sempre um exercício de escrita, ele é também muito mais do que isso, pois o blogger é não apenas um escritor, mas também um editor, e um leitor.

O texto electrónico iniciou uma verdadeira revolução, ou uma evolução, se preferirem, face aos suportes tradicionais, quer sejam os livros, os jornais ou as revistas. A ideia de proximidade pode ser usada para revelar as transformações operadas.

A eliminação de todos os intermediários por um lado, e a quase simultaneidade entre a escrita e a leitura por outro, colocam pela primeira vez o escritor e o leitor num verdadeiro frente a frente em que até o observador mais atento terá dificuldade em distingui-los.

As cerca de seiscentas pequenas histórias que escrevi até agora no Mil e uma pequenas histórias dificilmente existiriam se eu tivesse estado sozinho nesta empresa de escrever 1001 pequenas histórias. Na verdade, muitos são os blogs, os bloggers e os leitores que estiveram e continuam a estar comigo nesta empresa. Isto porque o blog, além de um exercício de escrita, é também um exercício de proximidade, de proximidade com outros blogs, com outros bloggers e com todos os que lêem e escrevem na Net.

Continuei a escrever porque recebi, em momentos difíceis, vários incentivos para continuar. Continuei a escrever porque senti os ecos das minhas pequenas histórias noutros blogs, noutros bloggers, noutros leitores. Esses ecos chegaram-me por hiperligações diversas, por comentários no próprio blog e por correio electrónico.

Estou convencido que o mesmo aconteceu, e acontecerá, com outros bloggers, que perceberam afinal que não estavam sós, bem antes pelo contrário, e foi esse facto que os levou, e nos leva a todos, a continuar, a persistir.


A terminar


Vou agora terminar, não com a releitura da pequena história com que iniciei, minha primeira intenção, à imagem do campeonato europeu que amanhã termina, mas com a leitura de outra pequena história, uma das últimas publicadas no Mil e uma pequenas histórias, mais precisamente a pequena história quinhentos e oitenta e cinco.


Ia um homem caminhando pelo parque, quando uma ema se acercou dele e lhe pediu com insistência:
— Por favor, conta-me uma história. Por favor.
O homem parou, surpreendido, e por alguns instantes nada disse.
— Bem que gostava de te agradar, mas há muitos e muitos anos que os homens deixaram de contar e de ouvir histórias. Diz-se mesmo que é um dom que está perdido para sempre, embora ninguém sabia verdadeiramente explicar o motivo.
A ema disse então:
— Mas tu já começaste, e vais muito, muito bem. Não pares agora e vais ver que consegues.
O homem assim fez, primeiro a medo, mas depois já empolgado. Falou durante muito tempo, e só quando terminou é que percebeu que à sua volta estavam agora muitos animais, e também homens mulheres e crianças que o aplaudiram longamente.
E foi esta a história que ele contou aos seus filhos quando chegou a casa.


Luís Ene, Alandroal, 3 de Julho de 2004
2:32 da tarde | 7 comentários |

15.11.05

Elementar, meus caros bloggers


" Com efeito, longe vão os tempos em que os blogs serviam de meros diários dos seus criadores, sendo certo que, actualmente, depende apenas e só do que o autor ou autores queiram que o seu blog seja (...).

De qualquer forma são sempre páginas (ainda que não em sentido técnico) colocadas na Internet onde os seus autores colocam opiniões, emoções, factos, imagens ou qualquer outro tipo de conteúdo que queiram disponibilizar para as massas, que actualizam com frequência, sendo certo que, com isso, pretendem, muitas vezes, influenciar massas e consciencializar opiniões.

(...)

No fundo, os blogs permitem que qualquer pessoa comunique para as massas e com as massas, já que qualquer pessoa pode fazer o seu próprio comentário sobre determinado assunto num blog. É a abertura da comunicação social a qualquer indivíduo que, até aqui, não tinha espaço, nem possibilidade de se expressar nos meios de comunicação social tradicionais."

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Excerto da sentença proferida a propósito do blog Do Portugal Profundo que pode ser lida no próprio blog.
9:39 da manhã | 2 comentários |

14.11.05

Eu queria ir, mas não posso :(


façam-me um favor e vão vocês! É em Évora, na livraria Som das Letras e na Sociedade Eborense, dia 16, respectivamente às 18 e às 22 h.
6:46 da tarde | 3 comentários |

Ver as diferenças



Leio no jornal sobre o namoro de duas alunas da secundária de António Sérgio, em Gaia, e suas consequências. “Queremos que nos tratem como pessoais normais”, diziam elas, em conclusão, e eu só posso concordar, ainda que dispensasse o qualificativo normais.

Ontem, ao almoçar com uns amigos, um deles pediu uma piza sem queijo. Não tenho nada contra as pizas sem queijo, desde que não as tenha de comer, e muito menos contra as pessoas que não gostam de queijo, por muito que tal me intrigue, uma vez que adoro queijo.

Isso mesmo lhe disse na ocasião, e vislumbrei algum espanto no meu interlocutor, pelo que lhe perguntei se não lhe fazia impressão que existam pessoas que adorem queijo. Respondeu-me que não, que não lhe fazia qualquer impressão.

Confesso que fiquei a pensar que talvez me tivesse expressado mal. Reconhecimento da diferença e estranheza são para mim uma e a mesma coisa — sendo eu heterossexual, a homossexualidade é para mim sentida como diferença, logo estranheza — e não impede, antes pelo contrário, o respeito pela diferença. Para respeitar as diferenças temos primeiro de as reconhecer.

O reconhecimento da diferença e da estranheza que nos provoca é o primeiro passo para o respeito pelos outros que são diferentes, tão diferentes quanto nós somos diferentes deles.
11:39 da manhã | 2 comentários |

12.11.05

Poemas e Poetas (18)

E TUDO ERA POSSÍVEL


Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer

Ruy Belo, Homem de Palavra[s]
Lisboa, Editorial Presença, 1999 (5ª ed.)

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11:37 da manhã | 3 comentários |

Ponto de partida


Valha-me Deus! Que esquisito que isto está hoje! E ainda ontem as coisas se passaram como de costume. Será que me transformei durante a noite? Deixa-me cá ver: seria eu a mesma que me levantei esta manhã? Quase que me quer parecer que me recordo de me sentir um pouco diferente. Mas se não sou a mesma a pergunta lógica é “Quem diabo sou eu?”. Ah, esse é o grande enigma.
Lewis Carrol, As aventuras de Alice no País das Maravilhas

Só encontrará a vida aquele que a perdeu.
Provérbio zen

No fundo, a única coragem que nos é pedida é a de fazermos face ao estranho, ao maravilhoso, ao extraordinário que se nos depara.
Rainer Maria Rilke, Cartas a um Poeta
7:33 da manhã | 0 comentários |

11.11.05

Escrever é

Quando escrevo, sou, e, ao mesmo tempo, não sou.

Escrevo como quem medita, as palavras são a minha respiração.

7:24 da manhã | 2 comentários |

10.11.05

Porque sim



Confesso um certo fascínio pelo uso da palavra na publicidade, aí se incluindo a política ou eleitoral. Um cartaz da campanha de Mário Soares recordou-mo. Diz apenas: Porque acredita em Portugal. Elidida está à frase “Votem em Mário Soares para Presidente”, ou tão só “Mário Soares para Presidente”, dada por uma gigantesca fotografia de meio corpo do candidato. E numa clara procura de brevidade na frase singela o sujeito está elidido e aponta em dois caminhos, ele ou nós. Podemos ler Porque ele acredita em Portugal ou Porque você acredita em Portugal.

Seja como for, preferia de longe “Porque acredita nos portugueses”.

PS: Depois de escrever este texto encontro o site oficial da candidatura e descubro que os portugueses têm um lugar nesta campanha, Soares sabe ouvi-los e uni-los. Prefere no entanto acreditar em Portugal.
9:19 da manhã | 2 comentários |

Uma verdade

Fernando Pessoa foi (é) o maior ficcionista português.




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7:18 da manhã | 4 comentários |

9.11.05

Escritores autênticos

a. Há pessoas que escrevem e têm talento.

b. Há umas que querem ser escritores e outras que não o querem ser.

c. E depois há aquelas que não conseguem deixar de ser escritores.

d. Estas últimas são (se tal espécie existe) os escritores autênticos.
10:05 da manhã | 0 comentários |

8.11.05

brincar com a língua (15)

Fácil de dizer

1

Procurou-se durante muito tempo, depois desistiu, por fim inventou-se.

2

Um escritor autêntico, talento à parte, é na verdade aquele que não consegue deixar de sê-lo.
10:34 da tarde | 0 comentários |

Pensamentos mais-que-imperfeitos (48)

Corpos presentes

1

O meu corpo, por
mais que o misture ao teu,
é ainda o meu corpo

2

Como posso esquecer-te?
O meu corpo é
um diário de ti.

3

Descubro-te inteira
em cada centímetro
do teu corpo.

4

Não quero uma carta
Para viajar no teu corpo.
Prefiro perder-me.
10:02 da tarde | 1 comentários |

pensamentos mais-que-imperfeitos (47)

[sem título]

Gostava de começar por
ouvir a tua voz
Olhar-te depois ao longe
Sem ser visto
Saudar-te de seguida
com acenos equívocos
E um dia, sim, um dia
Quem sabe
Aproximar-me finalmente
de ti
Parar à tua frente
O meu sorriso nos teus olhos
E dizer-te:
Olá, como estás?
9:29 da tarde | 1 comentários |

7.11.05

pensamentos mais-que-imperfeitos (46)

Poema carismático

Lembro-me do seu nome
De alguns pormenores do seu corpo
Lembro-me que era primavera
Que a luz entrava pela janela à minha direita
E era devolvida pela superfície espelhada do armário

Lembro-me de tudo isso
Mas tudo isso eu poderia ter esquecido
Tudo isso eu poderia ter inventado
Menos o brilho nos seus olhos
No mais profundo dos seus olhos

Como se não lhes pertencesse
Como se fosse apenas o reflexo
Da minha própria felicidade
9:22 da manhã | 0 comentários |

6.11.05

Pensamentos mais-que-imperfeitos (45)

Elipses

1.

Na vida não há soluções
Apenas caminhos

Caminhos que nos levam
Caminhos que abrimos
Pouco a pouco
Quase sem darmos por isso

E só quando chegamos
Descobrimos afinal
Para onde íamos

E partimos de novo.

2.

Pergunto a mim mesmo
quantos poemas existem
num único poema
terminado

quantos ficaram por escrever
para que só ele exista

poemas riscados, emendados,
inacabados

Talvez seja por isso que
de cada vez que é lido
um novo poema surja e,
afinal,

o poema nunca acabe
11:52 da tarde | 0 comentários |

brincar com a língua (14)


Três histórias com moral

1

Sandwich Greg

Chegou à cidade no final dos anos oitenta, vindo não se sabe donde. Vivia só e não se lhe conheciam familiares ou amigos. Durante mais de vinte anos, todos os seus dias foram iguais. Levantava-se de manhã cedo, arranjava-se, meditava, ia ao mercado, escrevia tarde adentro, comia qualquer coisa, dormia a sesta, andava uma hora e, ao fim do dia, abria a sua pequena loja de sanduíches e sumos variados até às duas ou três horas da manhã. Um dia morreu, mas nem por isso alterou a sua rotina.

Moral da história: Os hábitos são sempre os últimos a morrer.

2

Ler Alto

Gostava de ler, e lia, mas lia alto, tão alto que ninguém entendia o que lia. E quando lhe pediam para ler mais baixo, ele lia, mas lia tão baixo que ninguém o ouvia. Nunca deixou de ler, mas nunca alguém percebeu o que dizia. Também nunca perceberam outra coisa, nunca perceberam que ele era analfabeto.

Moral da história: Para fazer algo basta fazê-lo, não é preciso saber como.

3

Ele sem ela

Ele amava-a, e amava-a tanto que acreditava que sem ela não seria ninguém. Quando ela o deixou logo ele desapareceu, sem deixar rasto, e nunca mais ninguém o viu. Quanto a ela, ainda anda por aí, e talvez seja a única pessoa que sabe a verdade sobre o desaparecimento dele.

Moral da história: Somos aquilo que acreditamos
7:26 da manhã | 0 comentários |

4.11.05

pensamentos mais-que-imperfeitos (44)

Esgotamento

é preciso aprender a não nos agarrarmos
às coisas, às ideias, às emoções
pois uma vez convocadas
logo chega a hora de partirem

de as deixarmos ir
de ficarmos sós

porque nada nos pertence
porque nada fica sempre em nós
porque tudo muda

menos o constante apelo de ser
de apenas ser
de ser
3:06 da tarde | 0 comentários |

Poemas e poetas (17)

Sem outro intuito

Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.

Luís Miguel Nava
Vulcão I
Poesia Completa
1979-1994
Publicações D. Quixote
2002

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9:40 da manhã | 0 comentários |

3.11.05

Pensamentos mais-que-imperfeitos (43)

Três Desejos Mais Um

1.

A montanha estica-se
Para tocar o céu.
Esse é o seu maior desejo.

2.

O maior desejo?
Não desejar coisa alguma
Ser todas as coisas.

3.

Deseja o que tens
Aqui e agora, neste momento
Só assim serás feliz.

4.

Desejo é cobiça
vontade de ter, e ter
e ter e não ser
7:18 da tarde | 0 comentários |

brincar com a língua (13)

Ser e Ter


Tenho um grande amor por ti, começou ele.

Amas-me, contrapôs ela.

Mas tenho um grande problema, continuou ele como se não a tivesse ouvido.

Preocupas-te, resumiu ela.

Tenho cada vez mais a sensação que não me amas, concluiu ele.

Duvidas que te ame, resumiu ela mais uma vez.

Não sei o que tenho, recomeçou ele após um curto silêncio.

Não sabes é ser, atalhou ela, e foi-se embora sem olhar para trás, segura de si, deixando-o sem nada para dizer.

[Entre ter e ser há uma grande diferença.]
6:40 da tarde | 0 comentários |

Pensamentos mais-que-imperfeitos (42)

Desejar

Concedo-te três desejos, disse o génio, mas o homem respondeu: Não quero os teus desejos, usa-os tu.

O génio ficou algum tempo a pensar e finalmente decidiu-se.

Primeiro, desejou ser um homem.

Depois, desejou nunca mais desejar coisa alguma.

E assim, dos três desejos que tinha usou apenas dois.
7:54 da manhã | 0 comentários |

2.11.05

Poemas e poetas (16)

Alberto Caeiro

O Guardador de Rebanhos


XXIV

O que nós vemos das cousas são as cousas.
Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?

O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.

Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.

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3:53 da tarde | 0 comentários |

1.11.05

Pensamentos mais-que-imperfeitos (41)

Evocação

Sonhei que escrevera um poema
era tão real

mas quando acordei
e quis reproduzi-lo
não fui capaz.

Para não me esquecer
escrevi então este poema
que fala de outro
que apenas consigo evocar.

E adormeci de novo.
11:17 da tarde | 1 comentários |

Pensamentos mais-que-imperfeitos (40)

Coincidências significativas

A maior parte do tempo não percebo nada

E quando julgo perceber alguma coisa
Quedo-me sempre à beira da revelação

A contemplar o que não entendo
O que apenas mal pressinto
E que num momento já ali não estará

Deixando em mim uma ténue sensação de “déjà vue”
Que me acompanhará até à próxima vez
Que o ser do mundo quase se me revele
como sempre me acontece
10:26 da manhã | 0 comentários |