blog d'apontamentos

31.10.05

Notas soltas (15)

Sincronicidade




How You Are In Love



You fall in love quickly and easily. And very often.


You give completely and unconditionally in relationships.


You need your space and privacy. You don't like to be smothered.


You love your partner unconditionally and don't try to make them change.


You stay in love for a long time, even if you aren't loved back. When you fall, you fall hard.

How Are You In Love?


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7:03 da manhã | 1 comentários |

Notas soltas (14)

Dois blogs siameses

de poesia e de prosa, de arte e de vida

completam hoje dois anos e são sem dúvida um exemplo claro da importância da ferramenta blog como um novo veículo para a literatura.

como sentida homenagem transcrevo o último post de cada blog, num desejo de partilha que é também, estou certo disso, o de Márcia Maia.

O transplante

Por velho e cansado, desejei transplantar-me o coração. Em seu lugar, poria um cacto. Um tenro cacto, de folhas espessas e raros espinhos. Assim o fiz, não sem uma pitada de receio. Agora, quase um ano depois, nos damos bem, eu e o meu coração-cacto. Do antigo, herdou o vício de amar, bem mais contido. E por ser cacto, se acaso chora, não sangra, embora tenham seus espinhos crescido e me firam, vez por outra, quando abriga-se a saudade em meu peito.

id-ílico

as máscaras que me encobrem a face
por tantas serem eu delas nem sei
tampouco sei se me é vera a face
que sob elas me diz: não me sei.

se vem um ricto marcar minha face
depois um riso virá eu bem sei
se os olhos já me umedecem a face
a boca-máscara ri. tanto sei
quanto é inútil buscar sobre a face
resposta àquilo que eu nem mesmo sei.

(importa o que jaz aquém desta face
se em cada máscara oculto-me - eu sei! -
inteira mais além?) máscara e face
versões são de abismo? minto: não sei.

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PS. Correndo o risco de envergonhar a autora e parecer exagerado para quem me lê, quero dizer que só me ocorre uma palavra para classificar cada um dos seus blogs: excelente. Os dois juntos então, nem sei que dizer.
6:21 da manhã | 0 comentários |

30.10.05

Pensamentos mais-que-imperfeitos (39)

Poética

se eu falasse dos “telhados de quatro águas” de Tavira, pensariam talvez que me permitia alguma liberdade poética

no entanto, estaria apenas a ser exacto, a usar com precisão a língua portuguesa

ainda que a verdade seja que nunca pensaria em usar tal expressão se ela não despertasse em mim a poesia.

12:46 da tarde | 0 comentários |

29.10.05

Notas soltas (13)

Quando se discute sobre um prato fala-se de apresentação, aromas, sabores, valores nutritivos… e de texturas.

Confesso que a textura é para mim, se não a mais importante característica, sem dúvida a decisiva na apreciação de um prato.

E esta consideração ocorreu-me ao comer uns jaquinzinhos fritos (eu pecador me confesso), um dos meus pratos favoritos, por todas as razões referidas e ainda mais uma, a directa evocação da minha infância.

O meu maior prazer ao comer jaquinzinhos consiste em pegá-los à mão e trincá-los (para isso têm de ser frescos e estarem bem fritos, nem demais nem de menos, assim como bem escorridos), pouco a pouco, da cabeça ao rabo. E isto tem tudo a ver com textura.

Hoje, a pedido, fiz maionese (a textura é também muito importante), tarefa fácil que há muito não desempenhava. Às vezes parece que só descobrimos quando algo é importante quando não o fazemos há muito tempo.

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6:39 da tarde | 2 comentários |

brincar com a língua (12)

Certo bem-amado descobriu um dia que era afinal mal amado e nada podia fazer.

[Mais uma vez o mal vencera o bem.]
6:38 da tarde | 0 comentários |

notas soltas (12)

… quando estou a escrever, é um acto bastante inconsciente. Quer dizer, estou obviamente consciente de qualquer coisa. No entanto, os livros são gerados quase como sonhos. Não sei realmente o que estou a fazer.

Fragmento da entrevista realizada a Siri Hustvedt por Kathleen Gomes e publicada no Mil Folhas de hoje.

"O romance é um saco onde cabe tudo", diz uma personagem do romance de Siri Hustved agora publicado pela Asa, Aquilo que eu amava.

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12:28 da tarde | 0 comentários |

Pensamentos mais-que-imperfeitos (38)

Ser

Não tenhas medo do ridículo
Não tenhas medo de fazer figura de parvo

Sê quem tiveres de ser
Sê tu mesmo

O ridículo está no centro da existência
Existir é desconcertante

Ser nós mesmos é não ter medo de ser quem somos
Estamos mais perto de nós quando nos esquecemos de ser

Por mais ridículo que nos pareça
Por mais assustador que seja

Rir de nós mesmo é o melhor caminho
Para se chegar a ser quem se é.
12:26 da tarde | 0 comentários |

28.10.05

Pensamentos mais-que-imperfeitos (37)

Crer para ver

acreditamos que em tudo
há um mistério

mas nós é que não vemos
o que está
mesmo à nossa frente

o único mistério que existe
é não existir mistério algum

nós é que somos cegos e,
como se não bastasse, acreditamos
apenas no que vemos

e vemos tão pouco

e acreditamos tão pouco.
4:19 da tarde | 0 comentários |

notas soltas (11)


Pasmo.

Li por estes dias, melhor dizendo, forcei-me a ler por estes dias o romance a Dádiva Divina, de Rui Zink, uma ténue sombra do excelente O suplente do mesmo autor.

Pois não é que o dito cujo romance ganhou o prémio do P.E.N. Clube Português relativo a 2004 na modalidade de ficção!

Pasmo ainda mais!?
8:15 da manhã | 0 comentários |

27.10.05

pensamentos mais-que-imperfeitos (36)

Palavras e acções

Dizer que sem as acções
as palavras nada são
é dizer muito pouco

A verdade é que
só para os escritores
as palavras são acções

Dizer vou fazer isto
ou vou fazer aquilo
não corresponde a uma acção

Se nada se fizer
ficam apenas as palavras, a não ser
que as diga um escritor

E então…
7:23 da tarde | 0 comentários |

notas soltas (10)



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A literatura não é para comentar mas para ler.
12:08 da tarde | 2 comentários |

26.10.05

pensamentos mais-que-imperfeitos (35)

Escreviver

Escrevo mesmo quando não escrevo
Escrevo sempre
Em qualquer lugar
Em qualquer ocasião
Escrever é narrar, descrever
Qualquer coisa
Qualquer que ela seja

Escrever é, para mim, estar vivo
E não se está
Ora vivo
Ora morto
Assim como não se está
Ora a escrever
Ora a não escrever

Escrevo sempre sempre
Mesmo quando não escrevo.
9:37 da manhã | 4 comentários |

25.10.05

Poemas e Poetas (15)

Elegia por antecipação à minha morte tranquila

Vem, morte, quando vieres.
Onde as leis são vis, ou tontas,
não és tu que me amedrontas.
Troquei por penas prazeres.
Troquei por confiança afrontas.
Tenho sempre as contas prontas.
Vem, morte, quando quiseres.

Armindo Rodrigues

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8:49 da tarde | 0 comentários |

Poemas e Poetas (14)

Erros meus, má fortuna, amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que para mim bastava amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que as magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso dos meus anos
Dei causa [a] que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh, quem tanto pudesse que fartasse
Este meu duro génio de vinganças!

Luís de Camões

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7:36 da manhã | 0 comentários |

24.10.05

Notas soltas (9)


A Senhora Tempo

Era uma vez uma senhora que tomava conta do tempo, e que tinha muito trabalho. Ela tinha três filhos: a hora, o minuto e o segundo. Ela tinha de tratar dos relógios e dos filhos, mas ela é que era a principal ela é que dava ordens aos filhos e tratava da papelada do tempo. A papelada do tempo tinha as badaladas do sino registadas e tinha todas as horas e também as reuniões. Também havia a indicação de relógios doentes.

Enfim, ela tinha muito trabalho e não tinha tempo para descansar apesar de ser a senhora do tempo. Um dia foi falar ao conselho do tempo:

- Eu estou farta de trabalhar, trabalhar e trabalhar sem ter tempo para descansar. Preciso dum senhor tempo.

- Bem, pode ser, vamos espalhar a pela cidade toda.

Na primeira tentativa e nas outras 19 não houve nenhum que tivesse o cargo de Senhor Tempo. Mas quando apareceu o 20º candidato, a Senhora Tempo já estava mais interessada. Então muito decidida disse:

- Vais ser tu o Senhor Tempo!

Então a Senhora Tempo já podia descansar e ter mais uma pessoa que a ajudava porque era bondoso especialmente para ela.

--->

Escrito pela Laura poucos dias depois de completar nove anos de idade.
7:26 da manhã | 0 comentários |

23.10.05

brincar com a língua (11)

O ser e o tempo

1.

Fui, mas com o passar
do tempo, finalmente,
deixei de o ser.

2.

Durante muito tempo,
fui. Depois, depois
deixei de ser.

3.

Fui
Agora sou
1:01 da tarde | 0 comentários |

pensamentos mais-que-imperfeitos (34)

Auto-retrato de quem não sou

Dizem que sou uma pessoa triste
muito delicada
susceptível
pela minha parte considero-me
apenas melancólico.

Da tristeza retiro prazer
gosto de estar fora das coisas
observar sem participar
estar presente
mas ausente
em mim.

Nem sempre fui assim
em tempos envergonhava-me
de ser como sou e procurava
ser como os outros.

Andava sempre triste
sentia-me desajustado
em nenhum lugar era eu.

Depois fui-me aceitando
aos longos passeios solitários
à constante e dolorosa introspecção
a ser outro sendo cada vez mais eu.

Ainda estou a crescer
a transformar-me
mas sei que sou
melancólico

e sinto-me bem assim.

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8:24 da manhã | 0 comentários |

22.10.05

pensamentos mais-que-imperfeitos (33)

Matou-se com um tiro e de seguida atingiu a namorada. Era um indíviduo pacato, dizem, que tinha como único defeito o hábito de disparar sobre as pessoas sem qualquer motivo. [Moral da história: Quando tudo está de pernas para o ar interroga-te se não estarás a fazer o pino.]
7:18 da tarde | 0 comentários |

brincar com a língua (10)

Tenho tanta certeza que sou que às vezes duvido que seja.
8:25 da manhã | 0 comentários |

pensamentos mais-que-imperfeitos (32)

Em construção

Duvido muito, duvido sempre
De mim, dos outros e de todas as coisas.
E se alguma certeza tenho, é
a certeza dessa dúvida.

Mas tal convicção, ainda que profunda,
não faz de mim um céptico. Acredito
apenas que a verdade das coisas
não existe para além delas.

Talvez por isso desconfie de quem
usa as palavras como muros
e dos versos que se estendem
tal e qual labirintos brancos.

Sou afinal dúvida e certeza
Uma coisa e o seu contrário
E esta é a minha verdade
Sempre negada sempre reafirmada
8:02 da manhã | 0 comentários |

21.10.05

brincar com a língua (9)

sobre tudo
usa-se sobretudo
o sobretudo

--->

Uma brincadeira que já em tempos fiz e que só a busca da fotografia de um sobretudo me revelou :)

385. Sobretudo

Vestiu-se devagar, olhando-se no espelho, dando especial atenção ao conforto e às cores. E sobre tudo vestiu o sobretudo, sobretudo porque era um homem friorento, e o sobretudo era sobretudo uma peça de vestuário quente, ainda que pouco elegante. E dizia ele: sobretudo amo o meu sobretudo. [Era sobretudo isto!]

--->in Mil e uma pequenas histórias
4:58 da tarde | 0 comentários |

poemas e poetas (13)

apaixonada
apaixotudo
apaixoquase

Alice Ruiz

---> --->
4:43 da tarde | 1 comentários |

Notas soltas (8)

Haiku para todos:

---> Crie o seu próprio haiku, em inglês e sem esforço;
---> receba um haiku via e-mail, bastando enviar uma mensagem em branco para "basho@insite.com.br".
--->
11:18 da manhã | 0 comentários |

pensamentos mais-que-imperfeitos (31)

Escrever para ser

Não escolho o que escrevo
Quando escrevo limito-me a ser
Limito-me a escrever quem sou
Sou quem escrevo.

Não escolho portanto o que escrevo
Nem o que escrevo me escolhe
Escrevo o que tenho de escrever
Assim como sou quem tenho de ser.

Sou quem não posso deixar de escrever
E escrevo o que não posso deixar de ser
Escrevo quem sou.
9:40 da manhã | 2 comentários |

20.10.05

pensamentos mais-que-imperfeitos (30)

Ser e Escrever

1

Sou
Digo e repito
Disso tenho a certeza
Sou
Agora quem sou
É que deveras não sei
Nem procuro saber
Sou
Sou quem sou
Sei lá quem sou
Sou
Revelo-me e escondo-me
Nas palavras que escrevo
Escrevo-me
Sou
E, por estranho que pareça,
Isso é muito mais
Do que alguma vez fui.

2

Quando escrevo
só me ocorrem palavras vulgares
palavras cansadas de metáforas
cansadas do esplendor pesado
das evocações mais que duvidosas
Quando escrevo
uso palavras de todos os dias
palavras corajosas laboriosas
cheias de vontade de iluminar
o mais recôndito em mim
Quando escrevo escrevo-me
eu sou a escrita
a escrita sou eu
um homem vulgar um homem
de todos os dias
9:29 da tarde | 0 comentários |

Notas soltas (7)


1.

Assisto ao filme O Castelo Andante, de Hayao Miyazaki. Sou a única pessoa na sala. Não deixa de ser curioso e mesmo algo assustador.

2.

Começo a ler o último romance de Pepetela, Predadores. Reencontro o que sempre gostei na sua obra e que faz dele, na minha opinião, o romancista contemporâneo mais instigante da literatura de língua portuguesa: a procura de simplicidade, a coloquialidade, o gosto pela exposição e descontrução do processo de escrita, a estrutura cuidada, a forte ligação à história de um povo e de um país.

Logo no primeiro capítulo, nas primeiras páginas, quando a situação pede um flash-back, eis que o autor/narrador surge entre parênteses rectos, a explicar que o não vai fazer e porquê, quebrando desta forma um certo encanto e criando outro.

3.

E tudo isto?
Nada
Importante
9:19 da manhã | 1 comentários |

19.10.05

Onde me leio, releio e tresleio (4)


Disposição em labirinto de poemas de Casimiro de Brito retirados de labyrintus; edições quasi 2003
4:12 da tarde | 0 comentários |

pensamentos-mais-que-imperfeitos (29)

Ao HMBF --->

Se alguma coisa escrevo
é, sem sombra de dúvida,
tudo aquilo que afinal
não posso dizer, tudo aquilo
que afinal não posso
deixar de escrever.
2:16 da tarde | 2 comentários |

Poemas e Poetas (12)

acabou a farra
formigas mascam
restos da cigarra

->

debruçado num buraco
vendo o vazio
ir e vir

Paulo Leminski

---> --->
11:32 da manhã | 0 comentários |

notas simples (6)

A natureza do haicai

Três versos sem rima
Captam o que é eterno
no aqui e agora.
11:15 da manhã | 0 comentários |

notas simples (5)

Estrutura dos contos populares ou da ordem feliz

No era uma vez tudo está como é devido, só que, de repente, muitas coisas perturbadoras acontecem e bastante tempo passa até que tudo volte afinal ao mesmo.
9:33 da manhã | 0 comentários |

pensamentos mais-que-imperfeitos (28)

Eu

Saio de casa
Olho o céu
Limpo de nuvens
Um sol de Inverno
Ouço ao fundo o rumor
De mais um dia
que começa.

Estou descontraído.
Tranquilo.
Avanço passo a passo.

De repente, digo a mim mesmo
estou em Faro
são quase nove horas da manhã
é quarta-feira
recordo também o dia, o mês e o ano.

Sinto-me estranho
Perturbado
A que necessidade respondi?

Ainda que não o dissesse
Ainda que não o soubesse
Sempre estaria em Faro
Seriam quase nove horas da manhã
De quarta-feira
E o mesmo dia, mês e ano.

E eu?
Seria eu o mesmo
sem esta pequena revelação?
9:18 da manhã | 0 comentários |

18.10.05

Notas simples (4)

A fábula da raposa e das uvas contada e recontada

--> Esopo

Uma raposa faminta, ao ver cachos de uva suspensos numa parreira, quis pegá-los mas não conseguiu. Então, afastou-se dela, dizendo: "Estão verdes”.


---> Fedro

Forçada pela fome, uma raposa tentava
apanhar um cacho de uva numa alta videira,
saltando com todas as forças;
Como não conseguisse alcançá-lo, disse, afastando-se:
"Ainda não estão maduras; não quero apanhá-las verdes".

Aqueles que desdenham com palavras o que não conseguem realizar
deverão aplicar para si este exemplo.

Tradução de José D. Dezotti FCL - Unesp in "A Tradição da Fábula" de Maria Celeste C. Dezotti - Unesp - Araraquara - 1991.


---> La Fontaine

Certa raposa astuta, normanda ou gascã,
quase morta de fome, sem eira nem beira,
andando à caça, de manhã,
passou por uma alta parreira
carregada de cachos de uvas bem maduras.
Altas demais - não houve impasse:
"Estão verdes. . . já vi que são azedas, duras. . ."
Adiantaria se chorasse?

---> Monteiro Lobato

Certa raposa esfaimada encontrou uma parreira carregadinha de lindos cachos maduros, coisas de fazer vir água na boca. Mas tão altos, que nem pulando.
O matreiro bicho torceu o focinho:
- Estão verdes - murmurou. - Uvas verdes, só para cachorros.
E foi-se.
Nisto, deu o vento e uma folha caiu.
A raposa, ouvindo o barulhinho, voltou depressa, e pôs-se a farejar.

Quem desdenha quer comprar.

Monteiro Lobato. Fábulas. São Paulo, Brasiliense, 1991.

---> Millôr Fernandes

De repente a raposa, esfomeada e gulosa, fome de quatro dias e gula de todos os tempos, saiu do deserto e caiu na sombra deliciosa do parreiral que descia por um precipício a perder de vista. Olhou e viu além de tudo, à altura de um salto, cachos de uvas maravilhosos, uvas grandes, tentadoras. Armou o salto, retesou o corpo, saltou, o focinho passou a um palmo das uvas. Caiu, tentou de novo, não conseguiu. Descansou, encolheu mais o corpo, deu tudo que tinha, não conseguiu nem roçar as uvas gordas e redondas. Desistiu, dizendo entre dentes, com raiva: "Ah, também, não tem importância. Estão muito verdes". E foi descendo, com cuidado, quando viu à sua frente uma pedra enorme. Com esforço empurrou a pedra até o local em que estavam os cachos de uva, trepou na pedra, perigosamente, pois o terreno era irregular e havia o risco de despencar, esticou a pata e conseguiu! Com avidez colocou na boca quase o cacho inteiro. E cuspiu. Realmente as uvas estavam muito verdes!

MORAL: A frustação é uma forma de julgamento tão boa quanto qualquer outra.

Da Revista Veja, nº 187, de 5/4/1972

---> Luís Ene

A raposa olhou-se na fotografia e não gostou mesmo nada de se ver. Está desfocada, disse.
12:27 da tarde | 0 comentários |

notas simples (3)

Tenho bem presente
a tua ausência. É
isto a saudade?
11:36 da manhã | 1 comentários |

pensamentos mais-que-imperfeitos (27)

Paradoxos do Espaço-Tempo

Ainda que sempre haja um onde e um quando
Tudo acontece aqui e agora
Neste exacto momento
E assim afirmando não nego o passado
Apenas lhe retiro alguma importância.

Quantas vezes acreditamos que o que foi ainda é?
Quantas vezes nos esquecemos de ser nós próprios?

Vivemos aqui e agora. Ponto final, parágrafo.
Neste momento nada existe a não ser este momento.
Aqui e agora, sou. Depois, depois logo se verá.
9:28 da manhã | 0 comentários |

Notas simples (2)

Micronarrativas

1. Ele e ela chegaram agora aqui, digo eu, que sou quem conta a história.

2. O que é uma narrativa? – perguntou-lhe ele no exacto momento em que o escrevi no meu bloco de notas.

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Uma narrativa por mais breve que seja, apresenta acção (sequência de acontecimentos), personagens (seres que participam nos acontecimentos), narrador (que conta a história), espaço (lugar dos acontecimentos) e tempo (quando acontece a história).
7:57 da manhã | 2 comentários |

17.10.05

Poema e Poetas (11)


Bocage traduziu e escreveu fábulas.
10:46 da manhã | 0 comentários |

16.10.05

pensamentos mais-que-imperfeitos (26)

1

Não há nada melhor que o amor
sou peremptório
Não há nada pior que o amor
afirmo com igual convicção

Amo acima de tudo
os paradoxos

2

Não gastes o teu tempo
a procurar quem és
ou quem poderás ser
só sendo podes ser
tu próprio
e é isso que deves
ser
8:59 da manhã | 0 comentários |

15.10.05

Poemas e Poetas (10)

VII - Ao céu regresso

Ao céu regresso.
Quero dizer
à terra anoitecida
pelo amor.
Extasio-me
com a terrestre vida dos astros.
Passeio
por uma estrada de estrelas.
Isto é
uma estrada de flores sublimadas
pela noite.
Vou visitar um estábulo
em pleno universo.
Zodíaco.
Jardim zoológico astral.
Lá estão as constelações
irradiando o seu frio.
Quero dizer
os animais pela memória
desterrados.
Regresso à noite.
Piso a escuridão.
Olho o céu
como se a terra visse.
As estrelas são flores.
As constelações são animais.
O céu é um jardim
com um estábulo no meio.
Comem flores os animais da terra.
Mastigam estrelas os do céu.
O céu também é um chão
mas um chão feito de memória.
Estão lá os mitos.
Isto é
homens elevados
pela luz e pela palavra.
Pisam-se lá em cima astros
como em baixo
se pisam pedras.
No céu passo por mitos
e por ideias.
Estão lá poemas.
Quero dizer
coisas metaforizadas
por esta outra noite do mundo
íntima e secreta
que são as palavras.


António Cândido Franco
Estâncias Reunidas
1977-2002
Edições Quasi
2002, Lisboa
9:16 da tarde | 0 comentários |

Notas simples (1)

entrada em forma de guitarra

No dia 14 de Outubro, ao final do dia, no Chalé João Lúcio, António Cândido Franco falou de João Lúcio. Antes da conferência, o momento alto foi a curta mas maravilhosa subida à açoteia da casa, estranho e singular observatório.
8:25 da tarde | 0 comentários |

pensamentos mais-que-imperfeitos (25)

Do poeta
(À memória do poeta Emiliano da Costa)

Do poeta ficou o que sempre fica:
Os versos
Admirados por alguns
Esquecidos de quase todos

O epíteto
de maior poeta do Algarve
atribuído por uma poetisa consagrada

O nome de uma rua
O nome de uma escola

Será pouco?
Será muito?

É a vida. É a poesia.
É a saudade do que podia ser.
5:02 da tarde | 0 comentários |

14.10.05

pensamentos mais-que-imperfeitos (24)

Um olhar poético

Tenho uns óculos novos
Mais modernos
Mais bonitos

E o que é mais importante é que
Ao contrário das lentes anteriores
Que eram em tudo normais
Estas escurecem e clareiam sob a luz

Vejo agora tudo muito melhor
Muito mais nítido
Muito mais definido

E ainda que só o comprove
Quando espreito por cima dos óculos
Essa diferença não é por isso
Em nada menos importante

Assim queria eu que fossem os poemas que escrevo
Um filtro que, de uma forma quase imperceptível,
Alterasse profundamente a visão da realidade.
10:56 da manhã | 0 comentários |

pensamentos mais-que-imperfeitos (23)

É mesmo assim!
(Ao João Pedro George)

Tenho deslizes ortográficos e cometo erros gramaticais.
Repito-me muito. Uso e abuso dos trocadilhos.
Escrevo de forma simples, demasiado simples.
O meu humor é vulgar, às vezes até boçal.
O estilo, o estilo então é melhor nem falar.
No entanto, é assim que eu escrevo
É assim a minha escrita.
É assim que eu sou.
É assim que eu me escrevo.
8:03 da manhã | 4 comentários |

pensamentos mais-que-imperfeitos (22)

A minha morte

Se eu morresse agora
no exacto momento em que escrevo à mesa do café
haveria algum reboliço
alguma agitação.

Telefonem já para o 112!
Há algum médico aqui?
Estará morto?

A minha cabeça estaria caída sobre a mesa
à esquerda da folha onde escrevo
o caderno inclinado
à distância da minha miopia.

Eu estaria morto.
Já não seria.

E contar-se-iam histórias de como eu tinha morrido a escrever
muitos quereriam conhecer as minhas últimas palavras e

Quem sabe?

talvez não ficassem nem um pouco admirados ao saber
que eu escrevia afinal sobre a morte
a minha própria morte.
7:21 da manhã | 0 comentários |

13.10.05

brincar com a língua (8)


Portugal no seu melhor

Ontem fui visitar um amigo meu que é cabeleireiro de men e tem a estranha ideia que o bacalhau há Brás devia ser puribido, sabe-se lá porquê. Bebemos umas mines, comemos tramoços e minuins e, à saída, apesar de estar já um pouco tocado, não me esqueci de fexar o pertão, tal como ele me havia aconcelhado.

Moral da história: devia ser próibido escrever assim.
11:14 da manhã | 0 comentários |

pensamentos mais-que-imperfeitos (21)

Dias de uma tristeza contentinha
(à memória de Alexandre O’Neill)

Há dias em que não me apetece voltar
à casa que não tenho
ao lar que não tenho
a tudo que não tenho e pareço ter.

Hoje é um deles, por nenhuma razão em especial,
apenas por tudo e por nada,
como se costuma dizer.

E vou ficando no café ao fim da tarde.

Vou ficando sempre um pouco mais
só mais uma cerveja
só mais um minuto
mais mais mais
só mais um verso
antes de ir.

--->

Escrever

Dizes-me que escrevo com uma simplicidade desconcertante.
Agrada-me.
Comove-me.
É isso mesmo que procuro.
Ser simples.
Desconcertar.
Ai quem me dera escrever com a simplicidade desconcertante de uma flor!
8:19 da manhã | 2 comentários |

12.10.05

brincar com a língua (7)


1. Puxaram-lhe tanto, tanto, mas tanto pela língua, que quando deu por isso já ela quase tocava o chão.

2. Disseram-lhe tantos vezes em criança que não brincasse com a língua que, quando cresceu e se tornou escritor, só conseguia escrever coisas muito sérias e maçadoras.
11:22 da manhã | 0 comentários |

Poemas e Poetas (9)

Poema tirado de uma notícia de jornal

João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

Manuel Bandeira --->

"Na sua poesia, Bandeira abandonou o tom retórico de seus antecessores e usou a fala coloquial para tratar de temas triviais e eventos do dia-a-dia, com objetividade e humor."
11:00 da manhã | 0 comentários |

pensamentos mais-que-imperfeitos (20)

O que é a poesia?

A poesia não se serve das palavras; eu diria antes que ela as serve.
Isto mesmo diz Jean-Paul Sartre, ou dizia, se assim o preferirem,
pois que ainda que ele me fale agora, no exacto momento em que o leio,
a verdade é que o escreveu há mais de cinquenta anos.
Desde então, muita poesia se fez, e não me surpreenderia nada
se as suas palavras se mostrassem hoje completamente desadequadas.

Pela minha parte nada sei de poesia, e confesso que durante muito tempo
pensei exactamente assim, que a poesia não se servia das palavras,
antes as servia, numa vassalagem exagerada e desprovida de sentido;
e esta ideia foi tão forte em mim que me afastou da poesia,
não de a ler, que sempre a li, aqui e ali, mas de a fazer.

Hoje, que escrevo às vezes o que acredito serem poemas,
já não sei o que pensar, e não tenho certeza alguma
sobre o que é a poesia, mas não me importo nada com isso,
limito-me a escrever, talvez prosa, talvez poesia, que a verdade
é só uma: seja o que for que escrevo, afinal sempre me escreverei,
e isso é que é importante para mim, seja de que forma for.
6:55 da manhã | 0 comentários |

11.10.05

brincar com a língua (6)


Conselho aos homens

Em Espanha, tenta nunca embaraçar uma mulher, a não ser que o desejes mesmo, e ela também.

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Contexto:

11. Cuando la compañía de bolígrafos Parker Pen promocionó un bolígrafo en México, se suponía que los anuncios debían decir "no te avergonzará chorreándose en tu bolsillo". La compañía pensó que la palabra "embarazar" (del inglés "embarrass") era equivalente a "avergonzar", por lo cual el anuncio decía: " no te embarazará chorreándose en tu bolsillo ".

11. Quando a Parker Pen começou a vender uma caneta esferográfica no México, os anúncios deveriam dizer "it won't leak in your pocket and embarrass you". A empresa pensou que a palavra "embarazar" (engravidar, em espanhol) fosse a mesma coisa que embaraçar (deixar sem graça), de modo que o anúncio dizia "Não vaza no bolso e você não engravida".
12:27 da tarde | 0 comentários |

Brincar com a língua (5)

É fundamental dar atenção aos pormenores, por menores que eles sejam.
7:39 da manhã | 2 comentários |

pensamentos mais-que-imperfeitos (19)

Um poema que queria ser longo

Queria escrever um poema longo. Queria tanto.
Mas não tenho tempo. Escrevo apenas poemas breves.
É que um poema breve escreve-se num instante,
num qualquer intervalo entre duas coisas quaisquer.
Já um poema longo é algo de muito diferente,
é preciso tempo, muito tempo, para o escrever.
E não adianta somar vários poemas breves
na esperança de conseguir um poema longo.
É muito mais complicado do que isso.
Além de que os meus poemas contam histórias,
histórias sempre com princípio, meio e fim;
e uma história, toda a gente sabe, ou se conta logo ou nunca,
nunca mais acaba.
Por isso é que é preciso tempo e, já disse e repito,
eu não tenho tempo para escrever um poema
que não seja afinal um poema breve.
Isto é tudo o que eu pensava dizer-lhes, mas,
se querem mesmo saber, a verdade é outra:
até quando me sobra o tempo, como agora acontece,
falta-me de todo a paciência, e é por esse motivo
que até os meus poemas mais longos são bastante breves,
como este que escrevia e vai ficar por aqui.
12:02 da manhã | 2 comentários |

10.10.05

pensamentos mais-que-imperfeitos (18)

A cor dos teus olhos

“Qual é a tua cor preferida?”, pergunta-me ela,
e eu respondo: “A cor dos teus olhos”.
Então ela fica em silêncio e parece muito séria,
mas quando a olho bem nos olhos, eis que neles
vejo um sorriso luminoso, belo e subtil,
e fico a pensar que o que era afinal
um simples piropo, pode muito bem ser
uma enorme verdade.
6:19 da tarde | 0 comentários |

Brincar com a língua (4)

Lengalenga

O que é importante é distinguir o que é importante do que não é importante.
9:23 da manhã | 0 comentários |

9.10.05

Brincar com a língua (3)


(Sem guarda-chuva, à espera que a chuva pare, brinco com a língua.)

1. O gato comeu-lhe a língua, e não foi em sentido figurado. Felizmente, ele estava já estava morto e nada mais tinha para dizer.

2. Adorava tanto a língua materna que a conservou até ao fim da sua vida em formol.

3. Todos temos uma língua, seja qual for o significado que lhe dermos.

4. Falava português fluentemente, com excepção das raras vezes em que mordia a língua.

5. Tantas vezes deitou a língua de fora que um dia ela não voltou para dentro.

6. Tinha uma língua porca. Um dia lavou-a e nunca mais conseguiu dizer um palavrão.

7. Estavam a falar quando ela lhe meteu a língua no ouvido com sofreguidão. Depois ela nada mais disse e ele nada mais ouviu.

8. A língua portuguesa está entre as mais traiçoeiras do mundo, título que há muito disputa.

9. Era um homem muito calado mas adorava trava-línguas. Este era na verdade o único tema que lhe soltava a língua e o fazia falar durante horas.

10. Tropeçava muitas vezes na língua, razão que o levou a deixar de falar enquanto andava.
2:42 da tarde | 0 comentários |

pensamentos mais-que-imperfeitos (17)

É tudo verdade

Desejei-te intensamente, assim mesmo,
de repente, sem mais nem menos,
e em ti senti igual desejo. Não duvidei,
nem por um momento, da minha percepção,
mas recusei-me a acreditar que o que estava a acontecer
fosse algo mais que um produto da minha imaginação e,
no exacto momento em que mais te desejava,
disse-te adeus e fui-me embora, deixando-te para trás.
No caminho para casa fui meditando sobre a verdade das coisas,
e pensei que tudo seria incolor, inodoro, insípido e silencioso,
não fosse o dom de tudo percebermos de outra forma.
É sempre assim que afinal acontece,
foi assim mesmo que me aconteceu.

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9:28 da manhã | 0 comentários |

pensamentos mais-que-imperfeitos (16)


Desejou-a intensamente, assim mesmo, de repente, sem mais nem menos, e sentiu também nela esse desejo. Não duvidou nem por um momento da sua percepção, mas recusou-se a acreditar que o que sentia fosse algo mais que um produto da sua imaginação e, no exacto momento em que mais a desejava, disse-lhe adeus e foi-se embora, deixando-a para trás vestida apenas com o seu desejo.

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9:23 da manhã | 0 comentários |

8.10.05

Brincar com a língua (2)


Par de botas

Era um borra-botas sem emenda e um incorrigível lambe botas. E, como se isso não bastasse, tinha uma mulher feia como uma bota da tropa. Mas não se preocupem com ele pois cedo bateu a bota.
8:38 da tarde | 0 comentários |

Brincar com a língua (1)


Quando a morte veio para o levar, ele recebeu-a com um sorriso aberto: finalmente ia desta para melhor.
11:00 da manhã | 0 comentários |

7.10.05

pensamentos mais-que-imperfeitos (15)

À tua espera

Estou à tua espera, no átrio do museu.
Penso no tempo. É natural que o faça.
Não porque eu tenha chegado antes da hora
ou tu estejas atrasada. Penso no tempo
apenas porque muito tempo passou desde
a última vez. Penso no tempo, em quem fomos
e em quem somos e, assim pensando, eis que
o tempo passa e tu chegas, por fim, à
hora marcada.
9:46 da manhã | 0 comentários |

Onde me leio, releio e tresleio (5)

Casimiro de Brito, Arte da respiração, Para além do homem.

3. Um pé no mundo e o outro fora dele.

52. Onde não posso deixar de ser metódico é na dúvida.

aforismos ---> microcontos

Tinha um pé no mundo e o outro fora dele, não admira que toda a sua vida tivesse procurado o equilíbrio.

Foi o homem mais metódico que jamais conheci: inventariava e catalogava todas as suas dúvidas.
4:11 da manhã | 0 comentários |

6.10.05

pensamentos mais-que-imperfeitos (14)

Ler quem sou

Não lemos, lemo-nos, li não sei onde
e jamais me esqueci dessa verdade.
Talvez seja por isso que tento ler
apenas o que na verdade preciso
para conseguir afinal ser quem sou.

Todos os dias

Leio-me e escrevo-me
todos os dias,
do mesmo modo
que respiro e o
meu coração bate:
Como se rezasse,
como se nada
mais houvesse,
como se a escrita
imitasse a vida
9:13 da manhã | 0 comentários |

5.10.05

Pensamentos mais-que-imperfeitos (13)

Aforismos um pouco duvidosos

1. O dedo que aponta é o mesmo que tira a caca do nariz.

2. A verdade não existe. Esta é a única verdade.

3. A verdade é só uma: a verdade de cada coisa que existe.

4. A morte não existe, só existe a vida.
8:31 da tarde | 0 comentários |

4.10.05

Pensamentos mais-que-imperfeitos (12)

Dez horas e sete minutos

Está um bom dia para viajar
luminoso, nem muito quente nem
muito frio. E é tambem assim que
me sinto. Nem uma coisa nem outra,
mas, no entanto, aberto a tudo,
tal e qual este dia dia que ainda
agora começou e muito promete.

Da ambiguidade poética

Este não é um poema ambíguo:
Diz com muita exactidão e clareza
Tudo o que eu quero que ele diga
E tudo o que ele mesmo quer dizer.

Aceitem-no pois, assim, tal como
eu o aceitei. Nem outra coisa
esperava, de vocês e de mim.
1:24 da tarde | 0 comentários |

3.10.05

Onde me leio, releio e tresleio (4)


Quem leu tudo não leu nada. Não sabe nada. Eu, que muito li, gostava de ser capaz de ler uma só frase, uma só palavra, de me aproximar desse instante em que o silêncio

Casimiro de Brito, Arte da respiração, Intimidade, 22

[Procuro mais à frente a continuação, mas não a encontro... Será mesmo assim? Não tem ponto final... A última palavra é "silêncio"... Recordo-me de um microconto, como menos de cinquenta caracteres, que escrevi como uma contestação velada do que assim se pode dizer. Mais ou menos isto:

Antes de morrer disse: Quero deixar bem claro que
3:11 da tarde | 0 comentários |

2.10.05

Poemas e Poetas (8)

Soneto ao soneto

Soneto: De onde veio? Quem criou?
Que motivo o levou a ser escrito?
Entre os catorze versos, que foi dito?
Qual assunto o poeta nos contou?

Tanto fascínio, quando começou?
Prá que se criou algo tão bonito?
Como o mundo o manteve, como um rito?
E por que, desse nome, alguém chamou?

Sua estrutura, muitos elevaram.
O maior deles, creio, foi Camões,
Pois, em meio à prisão, onde o deixaram

Vinte anos, metido nos grilhões,
Fez sonetos que o tempo atravessaram,
Que ensinaram o amor às gerações.

Bernardo Trancoso

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8:52 da manhã | 0 comentários |

1.10.05

Poemas e Poetas (7)

A poesia

A poesia não é um código secreto
acessível apenas a alguns
nem uma sucessão de palavras
ininteligível pelo próprio autor.

A poesia é uma tentativa
de entender a vida.

Torquato da Luz (poesia recente)(2005)
11:58 da manhã | 2 comentários |

Poemas e Poetas (6)


meigetsu ya ike o megurite yo mo sugara

Ah, lua de outono —
Andando em volta do lago
Passei toda a noite.

Bashô

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8:40 da manhã | 0 comentários |

pensamentos mais-que-imperfeitos (11)


Mão aberta

1

Vazio de mim
Acordo a meio da noite
Cheio de palavras.

2

Aqui e agora
Neste preciso momento
Eu sou não sei quem.

3


Aqui e agora
Tento capturar uma frase
Que já esqueci.

4

Aqui e agora
Neste preciso instante
Sou este poema

5

Um haiku não pode
Ser tudo. É na verdade
Um simples apenas.

4:44 da manhã | 1 comentários |

pensamentos mais-que-imperfeitos (10)

A escrita e a vida

Escrevo um romance, sou romance.
Escrevo um conto, sou conto.
Escrevo um poema, sou poema.
E é assim que a escrita e a vida
em mim tanto se fundem e confundem.
4:41 da manhã | 0 comentários |